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TMS: o que é, indicações e como funciona

Guia do Dr. Jairo Ângelos sobre TMS (EMT): mecanismo, indicações, eficácia em depressão resistente e como funciona o tratamento na Clínica Impulsus.

Dr. Jairo ÂngelosCRM 4764-MA • RQE 3397 18 de junho de 2026
Dr. Jairo Ângelos realizando sessão de Estimulação Magnética Transcraniana (EMT/TMS) em paciente na Clínica Impulsus, São Luís (MA)

A Estimulação Magnética Transcraniana (EMT), conhecida internacionalmente como TMS (Transcranial Magnetic Stimulation), é hoje uma das tecnologias mais relevantes da neuropsiquiatria. É um método não invasivo, sem anestesia, sem sedação e ambulatorial, que utiliza pulsos magnéticos para modular a atividade de regiões específicas do cérebro. Neste guia, explico o que é a EMT, em quais casos a literatura científica respalda a indicação, como é o tratamento na prática e o que esperar desta terapia.

O que é a Estimulação Magnética Transcraniana

A EMT foi descrita pela primeira vez em 1985, pelo físico britânico Anthony Barker e colaboradores, na Universidade de Sheffield. Eles demonstraram, no periódico The Lancet, que era possível estimular o córtex motor humano com pulsos magnéticos e produzir um movimento involuntário da mão, algo até então só obtido com estimulação elétrica direta, dolorosa e impraticável fora de cirurgias. Aquele experimento abriu caminho para uma nova era da neuromodulação não invasiva.

O princípio físico envolvido é a lei da indução de Faraday. Uma bobina condutora colocada sobre o couro cabeludo gera um campo magnético rápido e intenso, na faixa de 1,5 a 2,5 Tesla, comparável à intensidade de um aparelho de ressonância magnética, porém pulsado em milissegundos. Esse campo atravessa a pele e o crânio sem ser distorcido e induz uma corrente elétrica no tecido cerebral subjacente, capaz de despolarizar neurônios em uma profundidade de cerca de 1,5 a 3 cm, conforme o formato da bobina.

Detalhe da bobina de EMT (MCF-125) posicionada sobre a cabeça da paciente durante sessão na Clínica Impulsus
Detalhe da bobina figura-de-oito posicionada sobre o alvo cortical durante sessão de EMT na Clínica Impulsus.

Como o estímulo magnético modula o cérebro

O efeito clínico da EMT não vem de uma única sessão, mas da neuroplasticidade induzida pela estimulação repetida. Quando aplicamos pulsos em alta frequência (tipicamente acima de 5 Hz) sobre uma região, tendemos a aumentar sua excitabilidade, em um fenômeno semelhante à potenciação de longo prazo (LTP). Já em baixa frequência (1 Hz), o efeito predominante é de redução da excitabilidade, comparável à depressão de longo prazo (LTD). Esses mecanismos foram amplamente caracterizados desde os trabalhos de Mark Hallett (NIH) e Alvaro Pascual-Leone (Harvard), ao longo dos anos 1990 e 2000.

Em quadros depressivos, por exemplo, observa-se hipoatividade do córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo (CPFDLE) em estudos de neuroimagem funcional. O protocolo clássico de EMT para depressão estimula justamente essa região em alta frequência, buscando restaurar o equilíbrio de redes que envolvem também o córtex cingulado anterior subgenual e o sistema límbico.

O que é evidência e o que ainda não é

É essencial separar o que tem respaldo de agências reguladoras e ensaios clínicos randomizados do que ainda é considerado experimental. As principais indicações com aprovação regulatória da EMT são:

  • Depressão maior resistente: aprovação inicial do FDA em outubro de 2008, após o ensaio multicêntrico de O'Reardon e colaboradores publicado em Biological Psychiatry (2007).
  • Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC): aprovação do FDA em 2018 para EMT profunda (dTMS), com base no estudo de Carmi e colaboradores publicado em American Journal of Psychiatry (2019).
  • Enxaqueca com aura: aprovação do FDA para um dispositivo de pulso único (sTMS) em 2013.
  • Cessação do tabagismo: aprovação do FDA em 2020 e indicação ampliada em 2022 para dTMS.
  • Depressão com ansiedade comórbida: indicação ampliada pelo FDA em 2021.
  • Protocolos acelerados para depressão: em setembro de 2025, o FDA concedeu clearance a um protocolo acelerado de dTMS para Transtorno Depressivo Maior, com eficácia comparável ao esquema padrão e tempo total de tratamento bastante reduzido.

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) regulamentou a EMT pelas Resoluções 1.986/2012, 2.057/2013 e atualizações subsequentes. Hoje são reconhecidas indicações como depressão unipolar, alucinações auditivas em esquizofrenia, planejamento neurocirúrgico (mapeamento motor) e, mais recentemente, condições como TOC e dependência de nicotina. A ANVISA registra diversos modelos de equipamentos para uso clínico.

Existem ainda indicações off-label com evidências promissoras, como dor neuropática, fibromialgia, reabilitação pós-AVC, zumbido e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Esses cenários devem ser discutidos individualmente, com clareza sobre o nível de evidência disponível.

Quão eficaz é a EMT em depressão resistente?

A pergunta mais comum no consultório é simples: “funciona mesmo?”. A resposta honesta também é simples: sim, com expectativas realistas. As principais metanálises e ensaios clínicos mostram, em depressão resistente a pelo menos dois antidepressivos:

  • Taxas de resposta (redução de pelo menos 50% nos sintomas) na faixa de 40% a 55%.
  • Taxas de remissão (paciente assintomático ou quase) em torno de 25% a 35%.
  • Efeito significativamente superior ao placebo (sham), com tamanho de efeito moderado, segundo a metanálise da Cochrane, o relatório da Health Quality Ontario (2016) e revisões sistemáticas mais recentes.

Esses números são particularmente relevantes em pacientes que já tentaram dois ou mais antidepressivos sem sucesso. Nesse grupo, as chances de resposta a um terceiro medicamento são tradicionalmente baixas, como demonstrou o histórico estudo STAR*D.

iTBS: a evolução do protocolo

Em 2018, o ensaio THREE-D, liderado por Daniel Blumberger e publicado na Lancet, mostrou que a iTBS (intermittent theta-burst stimulation), uma forma condensada de EMT que dura cerca de 3 minutos por sessão, é não-inferior ao protocolo convencional de 37,5 minutos. Os resultados foram equivalentes em eficácia, com melhor tolerabilidade. Esse avanço encurtou o tempo de cada sessão e ampliou o acesso ao tratamento.

Mais recentemente, protocolos acelerados (como o SAINT/SNT, de Stanford) têm demonstrado resultados expressivos em depressão resistente, com múltiplas sessões diárias guiadas por ressonância magnética funcional. É uma área de pesquisa que segue em rápida evolução, com clearances regulatórios obtidos inclusive em 2025.

Como é uma sessão de EMT

Quem nunca fez tende a imaginar algo complexo ou desconfortável. A realidade é bem mais simples:

  1. O paciente se acomoda em uma poltrona reclinável, totalmente acordado e sem necessidade de jejum.
  2. Na primeira sessão, o médico determina o limiar motor, ou seja, a intensidade mínima de pulso capaz de produzir uma contração discreta no polegar contralateral. Esse valor serve para calibrar a dose individual.
  3. A bobina é posicionada com precisão sobre o alvo cerebral desejado, com auxílio de réguas, sistemas de neuronavegação ou métodos baseados em coordenadas anatômicas padronizadas.
  4. A sessão dura, em média, de 3 a 40 minutos, conforme o protocolo escolhido. Durante o estímulo, há uma sensação de toques rítmicos no couro cabeludo e um som de “clique”. Em algumas situações, fornecemos proteção auricular.
  5. Ao final, o paciente está liberado para casa e pode retomar normalmente suas atividades, inclusive dirigir.

O curso completo de tratamento costuma envolver 20 a 30 sessões, em geral aplicadas 5 dias por semana durante 4 a 6 semanas. Pode ser seguido por sessões de manutenção conforme a resposta clínica.

Segurança, efeitos colaterais e contraindicações

A EMT é uma das terapias neuropsiquiátricas mais seguras hoje disponíveis. Os efeitos adversos mais comuns são leves e transitórios: desconforto no local da estimulação, cefaleia leve (que tende a desaparecer nas primeiras sessões) e, raramente, tontura.

O risco mais importante, e ao mesmo tempo extremamente raro, é a indução de crise convulsiva. As diretrizes internacionais de segurança publicadas por Rossi e colaboradores (Clinical Neurophysiology, 2009 e atualização de 2021) estimam um risco aproximado de menos de 1 em 30.000 sessões quando os parâmetros recomendados são respeitados. Esse índice é inferior ao de muitos medicamentos psiquiátricos.

As contraindicações absolutas são poucas: presença de implantes metálicos ferromagnéticos próximos à bobina, como clipes de aneurisma de gerações antigas, implantes cocleares e certos estimuladores. Marca-passo cardíaco distante da cabeça, DBS e a maioria das próteses dentárias modernas não impedem a EMT, mas exigem avaliação individualizada.

EMT em outras condições: o que já podemos oferecer

Para além da depressão, a literatura sustenta o uso da EMT em diversas outras situações clínicas, sempre dentro de critérios rigorosos:

  • TOC refratário: protocolo de dTMS sobre o córtex pré-frontal medial e córtex cingulado anterior, com aprovação regulatória e respaldo de ensaios randomizados.
  • Reabilitação pós-AVC: EMT do córtex motor não lesado (baixa frequência) ou do lesado (alta frequência) como adjuvante à fisioterapia, presente em diretrizes europeias, latino-americanas e americanas de neuroestimulação.
  • Dor crônica neuropática e fibromialgia: recomendação de nível A em diretrizes europeias para estimulação do córtex motor primário em dor neuropática crônica refratária.
  • Zumbido crônico, dependência química, TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) e transtornos alimentares: uso ainda em consolidação, com protocolos promissores em centros de referência.

O que define um bom serviço de EMT

Diante da popularização da técnica, é essencial reforçar alguns critérios que o paciente deve observar antes de iniciar o tratamento:

  • Indicação por médico com formação em neuromodulação, seja neurologista, psiquiatra ou neurocirurgião, e ausência de promessas milagrosas.
  • Equipamento registrado pela ANVISA, com manutenção e calibração documentadas.
  • Determinação individual do limiar motor e posicionamento adequado da bobina, com protocolos baseados em diretrizes internacionais.
  • Avaliação clínica estruturada antes, durante e após o tratamento, com escalas validadas (PHQ-9, HAM-D, MADRS, Y-BOCS, conforme o caso).
  • Integração da EMT com o restante do plano terapêutico, incluindo psicoterapia, medicação e mudanças de estilo de vida, em vez de tratá-la como terapia isolada.

EMT e DBS: terapias irmãs, não concorrentes

Muitas pessoas confundem EMT com DBS (Estimulação Cerebral Profunda). São técnicas complementares, com indicações diferentes. A EMT é não invasiva, modula o córtex superficial e atua principalmente em quadros neuropsiquiátricos. Já o DBS é cirúrgico, atua em estruturas profundas como núcleo subtalâmico, globo pálido interno ou tálamo ventral intermédio, e é indicado em distúrbios do movimento avançados e em alguns transtornos psiquiátricos altamente refratários. Conhecer profundamente as duas ferramentas é parte essencial da neurocirurgia funcional moderna.

Perguntas frequentes

A EMT dói?

Não. A maioria dos pacientes descreve a sensação como “toques rítmicos” ou “tapinhas” no couro cabeludo. Pode haver leve desconforto nas primeiras sessões, que tende a diminuir com a habituação.

Posso continuar usando meus medicamentos?

Em geral, sim. A EMT costuma ser combinada com antidepressivos, estabilizadores de humor ou psicoterapia. Qualquer ajuste é feito em conjunto com o psiquiatra ou neurologista assistente.

Quantas sessões são necessárias?

Em depressão, o curso típico é de 20 a 30 sessões. Em TOC, costuma ser de 29 sessões, conforme estudos pivotais. Os números podem variar de acordo com o protocolo (rTMS, iTBS, dTMS) e a resposta individual.

O efeito é permanente?

Muitos pacientes mantêm a melhora por meses ou anos. Outros se beneficiam de sessões de manutenção. Por isso, o acompanhamento médico após o curso inicial é fundamental.

EMT é coberta por plano de saúde?

Depende da operadora e da indicação. Na Clínica Impulsus, orientamos o paciente sobre as possibilidades, documentação e via de reembolso quando aplicável.

Considerações finais

A EMT representa um divisor de águas para quem convive com doenças neuropsiquiátricas refratárias, em que o tratamento medicamentoso não alcançou a resposta esperada. Não é uma “cura mágica”, mas, quando indicada corretamente, devolve a milhares de pessoas a possibilidade de retomar o trabalho, os vínculos afetivos e o prazer pelas coisas cotidianas, sem necessidade de internação, anestesia ou afastamento prolongado.

A EMT deve ser entendida como parte de um cuidado integral em saúde mental e neurológica. É essa visão científica, individualizada e acolhedora que orienta o nosso protocolo na Clínica Impulsus, em São Luís (MA).

Referências

  1. Barker AT, Jalinous R, Freeston IL. Non-invasive magnetic stimulation of human motor cortex. The Lancet, 1985. PubMed.
  2. O'Reardon JP, Solvason HB, Janicak PG, et al. Efficacy and safety of transcranial magnetic stimulation in the acute treatment of major depression: a multisite randomized controlled trial. Biological Psychiatry, 2007. Acessar artigo.
  3. Blumberger DM, Vila-Rodriguez F, Thorpe KE, et al. Effectiveness of theta-burst versus high-frequency repetitive transcranial magnetic stimulation in patients with depression (THREE-D): a randomised non-inferiority trial. The Lancet, 2018. Acessar artigo.
  4. Carmi L, Tendler A, Bystritsky A, et al. Efficacy and safety of deep transcranial magnetic stimulation for obsessive-compulsive disorder: a prospective multicenter randomized double-blind placebo-controlled trial. American Journal of Psychiatry, 2019. Acessar artigo.
  5. Rossi S, Antal A, Bestmann S, et al. Safety and recommendations for TMS use in healthy subjects and patient populations, with updates on training, ethical and regulatory issues: Expert Guidelines. Clinical Neurophysiology, 2021. PubMed.
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  10. Lefaucheur JP, Aleman A, Baeken C, et al. Evidence-based guidelines on the therapeutic use of repetitive transcranial magnetic stimulation (rTMS): an update (2014–2018). Clinical Neurophysiology, 2020. PubMed.
  11. Rush AJ, Trivedi MH, Wisniewski SR, et al. Acute and longer-term outcomes in depressed outpatients requiring one or several treatment steps: a STAR*D report. American Journal of Psychiatry, 2006. PubMed.

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Aviso médico: este conteúdo tem finalidade informativa e educativa, não substituindo consulta, diagnóstico ou tratamento médico individualizado. As condutas descritas podem variar de acordo com cada paciente e devem ser avaliadas por profissional habilitado.